TEXTO
3
AVALIAÇÃO INSTITUCIONAL DA ESCOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL
A
sociedade brasileira já está reconhecendo hoje a importância
da educação como um dos fatores básicos para solucionar
os desafios da desigualdade social e da competitividade econômica.
Da formação de pessoal qualificado e empreendedor depende
o sucesso das políticas de desenvolvimento econômico, tecnológico
e social do país. A qualidade da educação em todos
os níveis é hoje um diferencial das nações.
Para
a escola desempenhar o papel que a sociedade espera dela, enfatizam-se,
hoje, os princípios da autonomia. A autonomia permite
que escola assuma sua própria gestão com liberdade para
encontrar a melhor sintonia com a comunidade que atende de modo a desenvolver
a relevância social e econômica da educação
que oferece. De outro lado, a autonomia das escolas liberou os órgãos
educacionais de suas antigas funções administrativas,
substituindo-as pelas funções de avaliação
da qualidade e de assessoramento às redes de ensino.
A
contrapartida da autonomia é a transparência. Ela vem associada
à necessidade de avaliação não só
do aprendizado dos alunos, mas também dos professores e da escola
como um todo. Somente dessa maneira pode-se:
1)
prestar contas à sociedade que, afinal, é quem paga a
educação que recebe; e
2)
realimentar o processo educativo que a escola desenvolve, revelando
erros e acertos que servem para redirecionar práticas e reformular
as estratégias que devem levar aos objetivos visados.
Fundamentação
A
avaliação deve ser entendida como:
-
um processo contínuo de aperfeiçoamento do ensino;
-
uma ferramenta para o planejamento e gestão compartilhada da
escola; e
-
um processo sistemático de prestação de contas
à sociedade.
Avaliar
significa acompanhar mais de perto, aumentando as interações
entre a equipe para aprimorar as ações da escola como
um todo. E também verificar se as funções
e prioridades determinadas coletivamente estão sendo realizadas
e atendidas com os resultados esperados. É este contraponto entre
o pretendido e o realizado que dá sentido à avaliação.
A
escola de ensino fundamental pública tem necessidade de se auto-avaliar
e de ser avaliada externamente devido ao caráter público
de suas ações. Como seu custeio e resultados afetam toda
a sociedade, ela deve ser avaliada em termos de sua eficácia
social e da eficiência de seu funcionamento
A
avaliação institucional, interna e externa são
também maneiras de estimular a melhoria do desempenho e de evitar
que a rotina descaracterize os objetivos fundamentais. A avaliação
institucional preocupa-se essencialmente com os resultados das ações
educativas da escola, em particular, os relativos a ensinar e aprender.
Deve ser um processo contínuo e aberto, no qual os setores da
escola - pedagógicos e administrativos - reflitam sobre seus
modos de atuação e os resultados de suas atividades em
busca da melhoria da escola como um todo.
Além
de valer-se da racionalidade dos meios, usando aferições
quantitativas e indicadores clássicos, a avaliação
institucional abrange dimensões qualitativas, inclusive, aquelas
vinculadas ao Projeto Político Pedagógico da Escola.
Ao
se avaliar não se espera eliminar todas as discordâncias,
dúvidas e contradições características do
cotidiano escolar. No entanto, a avaliação deve contribuir
para revelar e estimular a identidade própria de cada escola,
preservando também a pluralidade de opiniões que é
constitutiva de qualquer escola.
Princípios
Tendo
em vista a descentralização dos procedimentos e a tomada
de decisão colegiada inerente aos princípios da autonomia
da escola, uma avaliação institucional das atividades
da escola deve ser desenvolvida tendo em vista alguns princípios
básicos:
-
aceitação ou conscientização da necessidade
da avaliação por todos os segmentos envolvidos, dos
executores aos beneficiários;
-
reconhecimento da legitimidade e pertinência dos critérios
a serem adotados;
-
envolvimento direto de todos os segmentos da comunidade escolar _
interna e externa _ na execução e na implementação
de melhoria do desempenho escolar, tanto administrativo (gestão),
quanto pedagógico (ensino).
Objetivos
A
avaliação institucional da escola tem por objetivo.
rever e aperfeiçoar o Projeto Político - Pedagógico
da escola, promovendo a melhoria da qualidade, pertinência e relevância
das atividades desenvolvidas na área pedagógica e na administrativa.
Em
face deste objetivo geral, pode-se ressaltar os seguintes objetivos
específicos:
1.
alimentar o interesse de se auto-avaliar como meio de conhecer melhor
e garantir a qualidade de gestão, bem como, de prestar contas
à sociedade e de verificar a consonância dos resultados
da escola com as demandas sociais, tanto as que se relacionam à
satisfação pessoal dos alunos, egressos, suas famílias
e equipes da escola, quanto as que se relacionam ao mundo do trabalho;
2.
conhecer melhor como as tarefas pedagógicas e administrativas
estão sendo realizadas e articuladas em benefício da função
principal de educar;
3.
(re)estabelecer compromissos com a sociedade, explicitando as diretrizes
do Projeto Político-Pedagógico e os fundamentos de um
programa sistêmico, e participativo de avaliação.
Este programa deve permitir o constante reordenamento, consolidação
e/ou reformulação das ações escolares, mediante
diferentes formas de divulgação dos resultados da avaliação
e das ações dela decorrentes;
4.
estudar, propor e implementar mudanças no cotidiano das atividades
pedagógicas e administrativas, contribuindo para a formulação
de Projetos Político-Pedagógicos cada vez mais socialmente
legitimados e relevantes.
Para
atingir os objetivos visados, a avaliação institucional
deve se caracterizar por:
-
levar em consideração os diversos aspectos inter-relacionados
das atividade-fim (pedagógicas) e das atividades de apoio (técnico-administrativas);
-
buscar a participação dos membros das comunidades interna
e externa da escola; participação esta que deve abranger
a implementação das medidas voltadas ao aperfeiçoamento
da escola;
-
inspirar uma atitude permanente de observação, reflexão,
crítica e aperfeiço-amento dos objetivos e prioridades
da escola.
É
fundamental entender que a avaliação institucional não
deve estar vinculada a
mecanismos de punição ou premiação. Ao contrário,
a avaliação institucional deve prestar-se para auxiliar
na identificação e na formulação de políticas,
ações e medidas institucionais que impliquem atendimento
específico ou subsídios adicionais para aperfeiçoamento
de insuficiências encontradas.
Além
dessas características que lhe oferecem legitimidade política,
a avaliação institucional precisa ser legitimada sob a
perspectiva técnica. A legitimidade técnica do processo
depende da:
1.
metodologia - além de construir indicadores adequados,
pode utilizar-se de procedimentos quantitativos e qualitativos e oferecer
modelos analíticos e interpretativos apropriados aos objetivos
do processo avaliativo;
2.
fidedignidade da informação - a existência
do clima de confiança e de uma base de dados confiáveis.
Em
que pese os esforços do MEC, ainda é insuficiente a base
de informações institucionais e estatísticas úteis
para a gestão escolar das redes de ensino municipais e estaduais.
Isso tem prejudicado a construção de indicadores para
a análise dos sistemas de ensino. Exemplo disto são aqueles
relativos ao "mapa escolar" (distribuição geográfica
dos prédios escolares x capacidade x demanda), aos "currículos
relevantes, aos "conteúdos programáticos", e
ao "custo por aluno".
Etapas do Processo de Avaliação Institucional
1-
Sensibilizar
-
Realizar diversas reuniões e encontros, objetivando sensibilizar
professores, alunos, funcionários e membros da comunidade usuária
para as vantagens e perigos da avaliação.
-
Convidar especialistas em avaliação institucional para
dar início ao processo de sensibilização.
-
Fornecer textos para a discussão do assunto e aprofundar o
conhecimento sobre avaliação institucional.
2-
Diagnosticar
É
o ponto de partida e necessita da existência de um conjunto comparável
de informações que permitam o diagnóstico da situação
em estudo. Os dados serão correlacionados de forma a gerar indicadores
e inferências para as avaliações interna e externa.
3-
Avaliação Interna
Consiste
em um momento de reflexão e debate interno da escola sobre suas
diversas dimensões, em um processo de auto-avaliação.
A perspectiva é que, considerando um conjunto de indicadores
e inferências, a escola possa analisar os vários dados,
gerando relatórios que reflitam como a escola percebe a si mesma.
Nesta etapa, a participação de professores, alunos e funcionários
é fundamental.
a) Avaliação das Séries
Aqui
é necessário considerar três conjuntos de elementos:
-
Condições - corpo docente; corpo discente; corpo
técnico-administrativo; infra-estrutura; perspectivas utilizadas
na definição e organização do currículo;
perspectivas do mercado de trabalho e perfil profissional para este
nível de escolaridade.
-
Processos - interdisciplinaridade, institucionalização,
qualificação do corpo docente e sua adequação
às diferentes atividades na série (domínio dos
conteúdos, planejamento, comunicação, compromisso
com o ensino); avaliação da aprendizagem (critérios
claros e definidos, identificação precoce das dificuldades
de aprendizagem, uso de avaliação para diagnóstico,
relevância dos conteúdos avaliados, variedade de instrumentos,
prevenção da ansiedade estudantil); integração
entre os professores da série e da escola com a comunidade.
-
Resultados - capacitação dos alunos concluintes
como cidadãos, em termos gerais, e como indivíduos produtivos
(trabalhadores, empreendedores) em atividades que exigem o nível
de escolaridade (ensino fundamental); análise comparativa com
mesmas séries de outras escolas e entre as mesmas séries
da escola.
b) Avaliação da Disciplina
-
Objetivos da disciplina, plano de ensino, fontes de consultas/bibliografia
por parte dos alunos e dos professores;
-
Procedimentos didáticos, métodos e equipamentos;
-
Instrumentos de avaliação, conteúdos das avaliações,
atividades práticas
-
Condições técnicas: pessoal qualificado e infra-estrutura
disponíveis para o desenvolvimento das disciplinas.
c) Avaliação
do desempenho docente
d) Avaliação do aluno
O
desempenho do aluno expresso pelo seu rendimento escolar, inclusive
nos anos anteriores e por sua participação nas diversas
atividades escolares (esportivas, culturais, etc.). Deve-se considerar
ainda os problemas sociais que interferem na aprendizagem escolar (ligados
à violência, ao ambiente escolar e familiar, ao uso de
drogas), além dos físicos e cognitivos.
e) Avaliação de pessoal técnico-administrativo
O
desempenho do pessoal administrativo expresso pela compreensão
do valor das atividades de apoio para a concretização
do ensino de boa qualidade, pelo cuidado relativo à documentação
escolar, espaço físico e por sua motivação
no trabalho.
f)
Avaliação da gestão escolar
O
desempenho da equipe de gestão escolar expresso pela competência
do colegiado em deliberar em conjunto, estar atento aos aspectos administrativos
e pedagógicos e mostrar capacidade em realizar a integração
escola/comunidade.
4-
Avaliação externa
Ela
introduz um componente novo e estimulante no âmbito da escola.
Requer
dos avaliadores externos e das comunidades da escola, capacidade
de discriminação, disponibilidade para o diálogo
e sentido de participação.
A
avaliação externa tem o papel de complementar e validar
a avaliação interna. Seu ponto de partida é o relatório
da auto-avaliação e ela contempla os mesmos aspectos da
avaliação interna, sempre em uma perspectiva complementar.
Para
encerrar este texto inicial sobre avaliação institucional,
deixamos duas observações para reflexão:
-
Sempre criticamos os que resistem a mudanças, como se nós
não resistíssemos a elas. Na verdade, resistência
a mudanças não é pejorativo, faz parte do ser
humano. Sempre que algo afeta valores, emoções, comportamentos
e conhecimentos, passamos a ter resistência. Procuramos permanecer
em uma zona de conforto. A nossa tendência é nos protegermos
dos problemas, evitando o desconhecido. Refugiamo-nos nos valores
e nos hábitos que já conhecemos. Como estamos vivendo
um período de transição, incertezas, a preservação
não é uma boa opção e entendemos que o
verdadeiro aprendizado sempre ocorre fora da zona de conforto.
-
Precisamos ter uma escola ágil, que preze a si mesma e seja
capaz de se questionar, uma escola com ambições, que
projete um futuro para si, que aspire a excelência e esteja
disposta a reconhecer e aprender com seus erros; uma escola capaz
de conviver com mudanças e de suspeitar de longas calmarias,
porque aprendeu que a mudança é a regra e a estabilidade,
a exceção. O que se espera é que todos - professores,
alunos, funcionários, membros da comunidade externa - se identifiquem
com o trabalho que realizam. Quando esta identificação
existe, a escola deixa de girar no mesmo lugar, repetindo as mesmas
rotinas ano após ano, porque energias positivas são
liberadas e a escola ganha vitalidade, sinergia e rumo.
O
próximo texto abordará um tipo de avaliação
externa que é a avaliação de sistemas, apresentando
como exemplo o Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Básica - SAEB.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BOTH,
Ivo José. Da verificação à avaliação
da aprendizagem,: processos antagônicos. Ponta Grossa: Cadernos
da PROCAD, n. 3, 1992.
ENSAIO:
avaliação e políticas públicas em Educação
, v.3, no 8, Rio de Janeiro: Fundação CESGRANRIO, 1995.
SEMINÁRIO
INTERNACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO.
ANAIS. RJ: CESGRANRIO, outubro, 1995.
SIMPÓSIO
NACIONAL SOBRE AVALIAÇÃO EDUCACIONAL: UMA REFLEXÃO
CRÍTICA. ANAIS. RJ: CESGRANRIO, outubro, 1993.
|