Texto Complementar ao Texto 3

RELAÇÕES DA QUALIDADE DO ENSINO COM
A VIDA FORMAL E INFORMAL DE UMA ESCOLA

Em suas condições atuais, a equipe escolar, a comunidade de professores, alunos e funcionários e a comunidade onde a escola está inserida se mobilizam para a ação, sem tempo para a reflexão crítica e a definição das ações estratégicas capazes de produzir os resultados mais significativos.

Todos são reativos, não havendo condições pessoais e técnicas para torná-los proativos; um grupo participativo e compromissado em conhecer e antecipar as necessidades e aspirações dos alunos.

As comunidades da escola, interna e externa, acumulam erros e fracassos devido a decisões impulsivas e à ânsia de chegar, a qualquer custo, a resultados na educação do aluno. Paradoxalmente, reproduzem a cultura da repetência e da evasão, do desperdício e do corporativismo, não melhoram a relevância social da escola que é ensinar e educar crianças e jovens.

As frustrações que sofremos na escola resultam do fato de adotarmos soluções apressadas para problemas que precisam ser melhor compreendidos e que só têm soluções de médio prazo. Precisamos urgentemente buscar a melhoria contínua do que fazemos e, para isso, é necessário rever valores e vivenciar mudanças. É preciso descartar velhos hábitos e construir uma nova cultura, na qual todos estejam comprometidos com o processo educativo e com a busca da melhoria da qualidade de ensino.

Qualidade é uma questão que ou se faz presente em todas as partes e dimensões do trabalho escolar - administrativas e pedagógicas - ou não é capaz de gerar os resultados desejados.

O fundamental, para quem quer promover a melhoria da qualidade de ensino, não é apenas seguir modelos e estratégias, mas sim aglutinar pessoas e contagiar a cultura organizacional da escola nessa direção. Os diversos setores da escola, administrativos e pedagógicos, não podem mais fechar-se em si mesmos. É de todos a responsabilidade de considerar a qualidade do processo e do resultado de todas as ações. A qualidade resulta do comportamento de cada um, de cada setor e do conjunto da escola.

Mas qualidade tem muitos significados que são mais ou menos adequados, dependendo de quem e do que se está falando. Vejamos algumas interpretações possíveis:

A questão da qualidade da educação tem levado a conflitos de concepção baseados, na maioria das vezes, na compreensão parcial do que se entende por qualidade. Apresentamos um resumo dos diferentes conceitos mais difundidos, que não são necessariamente conflitantes:

1. A qualidade como exceção: busca a diferenciação, a excelência, a superação de padrões;


2. A qualidade como perfeição e consistência: zerar erros e defeitos, acertar da primeira vez;


3. A qualidade como capacidade de atingir objetivos: funcionalidade, atendimento e satisfação dos usuários;


4. A qualidade como boa utilização dos recursos: prestação de contas, adaptação às demandas e necessidades sociais, eficiência;


5. A qualidade como poder de transformação: mudanças provocadas em alunos, professores, funcionários e métodos durante os processos ensino-aprendizagem e outros, estímulo à análise e à crítica.


Todos esses aspectos da qualidade devem ser levados em conta num programa de melhoria institucional consistente.

Lobo, 1995

Para concretizar qualquer um desses conceitos de qualidade, a escola deve:

  • possuir um clima aberto, gerado pela interação intensiva e recíproca de seus membros; e
  • estar em constante auto-renovação.

O Formal e o Informal da Escola

A escola se apresenta aos nossos olhos, nos dias de hoje, nos moldes do modelo formal-burocrático (do "modelo antigo"), segundo o qual ela se assenta numa minuciosa divisão do trabalho, rígida hierarquia e inúmeros regulamentos; tudo isso, com o fim de controlar o comportamento dos profissionais da escola. Além desses mecanismos, há também os processos de planejamento, avaliação e decisão, todos centralizados em conseqüência do alto grau de hierarquização.

Mas o estudo e a crítica à organização formal-burocrática não esclarece toda a verdade sobre a dinâmica organizacional da escola, já que ela (a organização formal), naturalmente e por uma questão de sobrevivência, convive com a dinâmica de uma organização informal. Os padrões formalmente instituídos se entrelaçam aos que existem informalmente, de tal forma que é impossível compreender uma organização formal sem compreender as redes de relações informais e as normas extra-oficiais que também vigoram. "A organização informal constitui o resultado da interação espontânea dos membros da organização. Não há estrutura formal sem a informal correspondente. Algumas vezes, ocorre que a estrutura informal tem uma influência tão penetrante que leva a uma redefinição total da organização formal." (CHIAVENATTO, 1979)

Pode-se afirmar que, nos estabelecimentos escolares, a organização formal burocrática não conseguirá alcançar seus objetivos sem a participação ativa da organização informal. E é através da organização informal que cada profissional integrante da escola melhor expressa suas verdadeiras atitudes e percepções, motivações, hábitos e expectativas. São sobre essas manifestações, e a partir delas, que se desenvolve a dinâmica escolar; e é natural que assim seja já que tanto a matéria-prima como o objeto e o produto da ação organizacional são as pessoas com suas motivações, percepções, atitudes, hábitos e expectativas.

Essa supremacia do informal sobre o formal é que permite, muitas vezes, aos profissionais da escola neutralizarem os efeitos danosos que caracterizam a organização formal-burocrática nas atividades pedagógicas. Por outro lado, esses aspectos humanos que caracterizam e definem a escola como um tipo especial de organização trazem também dificuldades para a sua administração. A diversidade de formação dos profissionais da educação (pedagogos, professores de física, português, contabilidade, história etc) pode enriquecer ou dificultar a obtenção de consensos em relação à uma determinada linha de ação ou à definição e operacionalização de objetivos e metas.

O ambiente interno se compõe das particularidades organizacionais da escola, expressas por sua organização formal-burocrática, bem como pelas características informais do comportamento das pessoas que nela trabalham e estudam. Essas pessoas estão ao mesmo tempo inseridas na organização formal e na informal. A interação entre esses dois tipos de organização, a forma de ser das pessoas e a influência que elas sofrem da moldura formal são componentes da identidade de cada escola e explicam porque cada uma delas é diferente das demais.

A Cultura Organizacional

As características particulares de cada escola não se apresentam na escola de forma fragmentada. Pelo contrário, elas se articulam e se integram, ao longo do tempo, dando ao ambiente interno da escola uma forma peculiar, que se altera pela contribuição de todas as pessoas, alunos e profissionais, que por ela passaram e passam ao longo de sua história.

Essa forma peculiar do ambiente interno de cada escola é o que denominamos cultura organizacional da escola. (Falcão Filho, 1985) "A cultura é um processo de criação, de experimentação, de seleção de normas e de maneiras de fazer", que é desenvolvido em cada escola por seus profissionais e alunos, sob a influência permanente do contexto externo no qual está inserido.

A cultura organizacional é o ponto chave da análise das organizações por duas razões: primeiro, porque tanto a estrutura como a dinâmica organizacional é montada e desenvolvida em função da cultura organizacional, ou seja, das características de seus membros e do relacionamento entre o ambiente interno e o ambiente externo. Segundo, porque é através da forma como as pessoas percebem essa cultura que se pode identificar e corrigir desvios, distorções ou falhas da organização.

A cultura organizacional se forma através da interação de três dimensões: (1) os regulamentos, os valores, as políticas administrativas e a forma como se exerce o poder; (2) o conjunto de processos utilizados para o desenvolvimento das atividades na escola, levando em conta a divisão das tarefas, a estrutura das funções, as metodologias utilizadas etc; (3) o conjunto de traços particulares, o modo de ser da equipe escolar. Essas três dimensões são interdependentes.

As Subculturas Organizacionais na Escola

A cultura organizacional não é uma só, monolítica, harmônica e igual para todos os integrantes da escola. Na realidade, a escola é um tecido de subgrupos que possuem cada um deles sua própria cultura e forma particular de encarar sua vida na escola. Esses subgrupos não chegam prontos na escola. Eles se formam a partir da própria experiência pessoal e coletiva na escola. Qualquer grupo humano cria naturalmente um conjunto de normas, um patrimônio de experiências comuns, de ações e respostas aos acontecimentos, que lhe fornecem uma abordagem relativamente unificada da realidade.

Pode-se identificar na escola as subculturas de diversos grupos de profissionais, em função, por exemplo, de sua formação e do tipo de funções que desempenham, ou também em função de afinidades pessoais e outras, sócio-econômicas, culturais, religiosas. Pesquisas comprovam diferenças entre professores e equipe administrativa, entre equipes docentes e administrativas que trabalham no turno noturno e as que trabalham no turno diurno etc. Também é possível identificar diferenças entre Diretores, Orientadores, Supervisores e Professores em relação a determinadas situações da vida da escola. Em cada escola, esses grupos formam subculturas que ao mesmo tempo apresentam características da cultura organizacional comum a todos os subgrupos e peculiaridades próprias de suas subculturas.

A análise da cultura e das subculturas na escola inclui, obviamente, os diversos grupos de alunos (ensino fundamental e médio, alunos do turno da manhã, da tarde, ou da noite) que também têm uma cultura própria, ou seja, cada um desses grupos forma uma subcultura semelhante aos profissionais da educação. A forma de atuação dos profissionais em relação a cada uma das subculturas da escola é um fator de grande importância na geração do clima organizacional.

Clima Organizacional na Escola

O Clima Organizacional é a forma pela qual as pessoas, à luz das suas próprias características, experiências e expectativas, percebem e reagem às características culturais da escola. O clima poderá sofrer alterações em função das características de cada uma das três dimensões determinantes da cultura organizacional e das relações com o contexto externo.

O clima é o cimento que pode unir ou dividir os sentimentos, um estímulo ou um obstáculo à motivação e à iniciativa dos vários membros da escola. Representa um fator vital para o alcance ou não dos objetivos tanto dos professores como dos diretores, especialistas e funcionários administrativos. O clima institucional também influi na maior ou menor gravidade que os conflitos entre os diversos segmentos da escola podem adquirir e, dessa forma, ajuda ou atrapalha a consecução dos objetivos da escola.

Um outro aspecto a considerar em relação ao clima é o seu caráter de ser, ao mesmo tempo, uma conseqüência e uma causa (CHIAVENATO, 1979). É conseqüência da dinâmica escolar, porque está sempre sendo formado (reproduzido ou alterado) pelo modo como as decisões estão sendo tomadas, as políticas e os objetivos estão sendo formulados, assim como pelo modo como as relações interpessoais dentro da escola e da escola com a comunidade externa estão se dando. Por outro lado, o clima é uma causa no sentido em que já existe, sempre e permanentemente, na forma como cada profissional ou grupo de profissionais o percebe e se sente influenciado por ele. Há sempre um clima.

A conseqüência desta característica do clima é que todos que têm funções de coordenar, assistir, orientar, dirigir ou supervisionar as atividades das outras pessoas devem estar atentos não só para o processo de formação de clima, mas também para o clima já existente.


Devemos nos lembrar também que as pessoas estão ligadas ao mesmo tempo à cultura organizacional da escola e às diversas subculturas a que pertencem. Esta dupla maneira de pertencer influencia a forma como cada pessoa percebe a cultura organizacional maior, e conseqüentemente como ela percebe o Clima da escola. As complexidades das culturas e do clima organizacional são úteis para nos lembrarmos que estamos buscando qualidade em uma organização de pessoas humanas, permeáveis a idéias e ideais, que trazem memórias de sucessos e fracassos, mas que são também capazes de compartilhar visões de um futuro melhor e mais relacionado às suas próprias ações (e não à determinações de outros).

Ambiente Externo

As características organizacionais da escola "só podem ser entendidas mediante análise das características ambientais externas" (CHIAVENATO, 1979) com as quais a escola se defronta diariamente. A forma como a escola se estrutura e funciona reflete, em maior ou menor medida, as demandas manifestadas pelo ambiente externo. Isso significa que devemos reconhecer e assumir que a administração da escola deve sempre levar em conta esta influência e buscar a melhor sintonia possível entre as duas esferas.

Essa interface do ambiente interno da escola com o seu ambiente externo enriquece a gestão da escola e produz diferenças de resultados e de maneiras de administrar as escolas. No entanto, é importante que as escolas não se limitem à uma postura meramente reativa ao ambiente externo, seja para se defender dele ou para se ajustar a ele. A escola tem grande potencial de influência sobre o seu ambiente externo e deve procurar exercê-la em favor de sua missão principal: a de oferecer educação de qualidade em sintonia com as necessidades da comunidade local.

Conclusão

Com a autonomia da escola, a organização formal poderá estar mais próxima da informal. A busca contínua de melhoria dependerá fundamentalmente do clima institucional e de obter o melhor proveito possível dos talentos dos profissionais da educação e alunos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHIAVENATO, A . Teoria Geral da Administração. SP.: McGraw-Hill, 1983 (2ª edição).

FALCÃO FILHO, J.J. Clima Organizacional em Escolas de 1º e/ou 2º graus _ Dissertação de Mestrado, PUC-SP,1985.

LOBO, Roberto L. (1995) A Educação nas Universidades Latino-Americanas, apresentado em seminário do Projeto Columbus, SP, mimeo.